Meus amigos estão batendo em minha porta como se fossem loucos desesperados, tarados por diversão. “Acalmem-se! Já estou descendo.” Parece até que que é a primeira vez que estamos fazendo isto. Uma, duas, três… não consigo contar daqui de cima… quatro, cinco, seis… Nossa! Perdi as contas de quantas garrafas de cachaça cada um deles carregam em mãos. A noite promete. Alugamos uma boate por uma noite inteira, só pra nós. Vamos ouvir as músicas que quisermos e só entra quem deixarmos entrar. Ouvi dizer que até chamaram algumas strippers, e que elas foram pagas para fazerem tudo o que quisermos. Tudo mesmo! É claro que não encostarei nelas, mal as olharei, sei que não é o certo a se fazer. Mas pensando bem, eu deveria aproveitar ao máximo… deveria? Foi João quem inventou essa coisa de “despedida de casado”, ficou me dizendo que seria melhor, que assim eu iria esquecer mais rápido, seguir minha vida sem que eu ficasse em casa, jogado na cama com a barba por fazer. Ele deu a ideia e meus outros amigos logo concordaram, o engraçado é que eles simplesmente esqueceram de perguntar o quê eu achava da ideia.
Faz pouco tempo que meu casamento acabou, e mesmo que eu tente aparentar que está tudo bem, só eu sei o que se passa dentro de mim. Sinto tanta falta dela. Do cheiro dela, do café dela, do perfume dela, do jeito que ela dobrava minhas roupas, do jeito que ela mordia os lábios quando ficava brava comigo. Foram dez anos de casados. Ela era minha família. Muitas discussões e brigas, mas quando estávamos bem, não havia casal no mundo que se comparava a nós. Havia dia que dificilmente um ouvia a voz do outro, eram só trocas de carinhos, troca de olhares e sorrisos, não precisávamos ouvir da boca do outro, a gente se amava e isso transparecia em nossas feições. Nesse tempo em que estamos separados, não houve, sequer, uma noite que eu não me perguntei “o quê foi que aconteceu?” Poderia usar o desgaste, o tédio, monotonia, como desculpa, mas quando comparo essas coisas ao amor que tínhamos, fica tão… tão pequeno. Não é possível que esses tenham sido o motivo.
O celular está tocando e aposto que deve ser um dos rapazes. Daria o mundo para que fosse ela ligando, pedindo para que nos encontrássemos em nosso barzinho, calmo, com músicas de mpb ao vivo. Foi lá que tudo começou. Um sorriso de canto de boca, acanhado, atravessou meu olhar e pronto, meu futuro estava decidido. Mas nem nos meus sonhos mais otimistas, isso iria acontecer. Ela tem um orgulho que incrivelmente consegue ser maior que a beleza dela.
Nossa, que arruaça eles estão fazendo lá fora! Definitivamente isso não é pra mim, não sou mais um adolescente, nem eles são, mas acho que esqueceram de contar isso para eles. E depois que ela apareceu em minha vida, só consigo imaginar minha vida à dois… ela e eu, como sempre foi e como deveria estar sendo agora. E se eu, na primeira vez na vida, tomasse a iniciativa?! E se fosse a minha vez de sorrir pra ela?!
…
“Vamos, cara, desce!”
…
“Vamos nos atrasar, porra!”
…
“Cara, nós estamos indo. Sabe onde nos encontrar.”
…
…
“Alô, sou eu… quanto tempo… como vai? …”